Nossa Senhora da Conceição e a Catedral Metropolitana de Campinas

Catedral 1880A imponente Matriz de Nossa Senhora da Conceição futura Catedral de Campinas, em 1880. Fonte: Arquivo fotográfico do Museu da Imagem e do Som de Campinas.

 

No dia 08 de dezembro é comemorado o dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Brasil. O evento remonta o ano de 1476 quando o Papa Sisto IV definiu a comemoração de maneira universal, mas foi oficializado, na forma de um dogma, pelo Papa Pio IX na bula Ineffabilis Deus, em 1854. Estava, assim, oficializado o culto à forma da Imaculada Conceição, entretanto, este culto já havia se propagado de maneira muito mais popular, pela Europa e pelos países colonizados, bem antes. A colonização do Brasil, em sua maioria composta por portugueses e espanhóis, povos essencialmente católicos, recebeu na figuração da Imaculada Conceição uma fonte simbólica da luta pela sobrevivência nas novas terras, inóspitas e isoladas. Com grande apego à figura da Virgem a veneração cresceu de maneira constante.

Mas, Nossa Senhora da Conceição e o dia 08 de dezembro, para Campinas, tem uma relevância ainda maior. Após algumas petições, em 07 de Maio de 1774, Frei Dom Manuel da Ressurreição concede autorização aos moradores da paragem para a construção de uma capela provisória com a vocação de Nossa Senhora da Conceição. A capela provisória seria o marco simbólico de que uma igreja destinada à entidade estaria em construção, muito mais significativo é o fato de que apenas após esta autorização o Capitão General Morgado de Matheus pôde, enfim, determinar a fundação jurídica da freguesia. Nossa Senhora da Conceição foi escolhida como padroeira da Capela Provisória e da primeira Matriz pelos primeiros moradores, representados na figura do Diretor escolhido, Francisco Barreto Leme. A primeira menção à padroeira encontra-se registrada no primeiro Livro do Tombo da freguesia, quando apenas solicitavam uma Capela ao Bispado, mas já a solicitavam destinada à Imaculada.

Passado os primeiros tempos da freguesia, em 1807, com uma população ativa economicamente, em grande parte um vínculo fortalecido para agricultura da cana de açúcar, a população optou por criar novo marco. A primeira Matriz da Conceição, considerada, na época, com aspecto modesto não poderia mais representar a nova geração formada pela exploração agrícola. Assim, em uma reunião ficou estabelecido e registrado em cartório um documento onde os representantes ativos da comunidade se comprometiam à construção de um novo templo, o documento recebeu o nome de “Auto de obrigação e contribuição voluntária que fazem os povos desta villa para a factura e construção da nova matriz desta mesma villa”.

A efetiva construção da taipa do templo iniciou-se em 1809, após a primeira arrecadação do imposto sobre a produção, ocorrida em 1808. Os representantes do primeiro Diretório das Obras acreditavam então que seria uma obra rápida, por isso previam um imposto para durar no máximo de 3 a 5 anos. Crises econômicas, a grande queda no preço do açúcar mundialmente, a falta de mão de obra especializada no processo de construir em taipa, a falta mesmo de qualquer mão de obra pois os fazendeiros tinham que abrir mão de seus escravos pessoais para o projeto, fizeram com que a obra demorasse a ser concluída. Somente em 1846 a caixa de taipa ficou pronta e o teto foi coberto por telhas, e por isso, somente em 1854, teve inicio o grande conjunto de talha que hoje o templo possui.

Em decorrência do tempo prolongado para a construção, os habitantes da cidade passaram a diferenciar as duas matrizes com vocação à mesma entidade com as denominações de “Matriz Velha” e “Matriz Nova”. Em 1870, após a separação da cidade em duas paróquias oficialmente, a primeira matriz passou a ter a denominação de Matriz do Carmo, e a nova passou a ter a denominação de Matriz de Nossa Senhora da Conceição. No momento exato em que passou à Matriz da Conceição o novo templo passou a sediar todo o acervo destinado à Nossa Senhora da Conceição desde a fundação.

A evolução construtiva seguiu sua história, acompanhando os problemas políticos, econômicos e religiosos da cidade, do Estado e do país. Acompanhou também as crises epidêmicas, higiênicas e sociais, não dispensando, talvez o mais importante dos aspectos, o acervo artístico que se formava com a evolução dos tempos.

Foram três as fachadas que ruíram ao longo do tempo, em 1865, 1866 e 1874, um histórico que causava medo e descrédito entre os moradores. A evolução técnica dos materiais, a chegada da Cia Mogiana de Estradas de Ferro a Campinas e a penetração dos engenheiros estrangeiros formados mudou o panorama da construção da região, dando possibilidades concretas para uma construção daquele porte. Em 1876, o engenheiro italiano Cristóvão Bonini é contratado para um novo projeto de fachada, Bonini era engenheiro da Cia Sorocabana de Estradas de Ferro e residia em Campinas. O novo projeto foi aprovado e construído de 1876 a 1883, finalizado pelo arquiteto campineiro Francisco de Paula Ramos de Azevedo.

Na data de 08 de dezembro de 1883 foi, oficialmente, inaugurada a Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Campinas, símbolo arquitetônico de toda uma geração formada pela riqueza do açúcar e do café. A data, importante para os católicos mundialmente, também era importante para a história dos campineiros, importante ainda para o arquiteto Ramos de Azevedo, nascido a 08 de dezembro de 1851.

Seguindo sua trajetória de representante do catolicismo no interior de São Paulo, a Matriz foi elevada à Catedral Nossa Senhora da Conceição de Campinas, em 1908, passando a ser sede de bispado. Dom João Baptista Correia Nery, primeiro bispo de Campinas, tomou a si grande tarefa de renovação da arquitetura e da finalização da fachada, tendo, de 1909 a 1920, promovido a instalação dos apóstolos e evangelistas da fachada, a mudança na geografia interna dos altares e a inauguração da Nova Capela do Santíssimo Sacramento da Catedral. O aspecto atual da Catedral foi delineado sob o comando de Dom Campos Barreto, em 1923.

Com a criação da Província Eclesiástica de Campinas, em 1958, a Catedral passou à denominação de Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Conceição de Campinas, agora Igreja Arquiepiscopal.

Mais um aniversário deste templo tão importante foi comemorado, em 08 de dezembro passado a Catedral fez 131 anos de inaugurada, seu maior legado reside no grande acervo artístico que soube manter ao longo do tempo, acervo este que conta em suas peças um pouco da história do Bairro do Mato Grosso, da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, da Vila de São Carlos e da Cidade de Campinas. Quando levado em consideração seu tempo de construção são 207 anos acompanhando o desenvolvimento de Campinas.

Neste ano de 2014, foi possível reescrever a histórica artística e arquitetônica deste importante patrimônio de Campinas, através de uma pesquisa de mestrado, intitulada “Catalogação do acervo artístico e arquitetônico da Catedral Metropolitana de Campinas: pinturas, esculturas, talha e detalhes arquitetônicos de 1840 a 1923”, pesquisa concluída e arquivada na Unicamp. Este foi um trabalho realizado com grande prazer pela possibilidade não somente de devolver a história do acervo, mas também de poder proporcionar aos frequentadores um conhecimento mais detalhado do patrimônio histórico, artístico e religioso do qual frequentam.

 

Paula Elizabeth De Maria Barrantes

Doutoranda em História da Arte- Unicamp

Responsável pela “Catalogação do acervo artístico da Catedral Metropolitana de Campinas”

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