Flausino Rodrigues Vale- Biografia

Flausino Rodrigues Vale nasceu em Barbacena, Minas Gerais, 1894, e faleceu em Belo Horizonte, 1954. Aos dez anos de idade inicia-se no aprendizado de violino com João Augusto Campos, que havia estudado com Manuel Joaquim de Macedo, um virtuose. Em 1912 muda-se para Belo Horizonte a fim de dar continuidade nos estudos. Mais tarde forma-se em Direito, passando a advogar, também torna-se professor do recém criado Conservatório Mineiro, hoje Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais. Entre 1930 e 1940 apresentava-se como solista de orquestra em recitais tendo, porém, se especializado em folclore brasileiro.

Lançou três livros- Caleidoscópio (poemas, 1923), Elementos de folclore brasileiro (1936) e Músicos Mineiros (1948)- e deixou outros inéditos como “Ânfora de rimas” (poemas) e “A música e as profissões liberais”.

Como Mário de Andrade e alguns modernistas, fez incursões pelo interior de Minas Gerais, observando e anotando melodias, bem como particularidades de festas populares a que assistiu. Adquiriu um material base incorporado, posteriormente, nas composições para violino solo. No entanto, a relação de Flausino com a natureza e a cultura popular era muito menos “científica” e mais, se se pode dizer, “naturalmente empírica”.

Foi na infância que se arriscou nos primeiros versos que levaram posteriormente aos livros de poemas. Mas a música predominou em sua vida e no prefácio de Caleidoscópio afirma:

“Visto demandar a poesia muito menos aptidão e estudo que a música, e como circunstâncias especiais inibiram-me de estudar a parte científica desta arte, imprescindível para ser-se um bom compositor, escrevo versos já que me falece competência para produzir músicas. Entretanto, não deixo de aninhar no íntimo uma tênue esperança de, talvez no ocaso da vida, poder modular os sons agora mal articulados por mim, que retenho na métrica, às vezes claudicante, e enfeixo nas rimas, às vezes absonas, destes meus desataviados versos”.

Aos poucos desenvolveu confiança como músico, deixando aos poucos a poesia. Após escrever Batuque, em 1922, Flausino vai paulatinamente constituindo uma obra musical. Quando morreu, em 1954, deixou peças para violino, canto e flauta, sempre acompanhadas de piano. Compôs peças para coro misto e cerca de 70 arranjos e transcrições para violino, obras tão diversas tal como uma versão de Asa Branca, de Luiz Gonzaga, e um Noturno de Chopin, ambos para violino solo, e um segundo violino (que deveria substituir o piano) para a Sonata Kreutzer de Beethoven. A quase totalidade destas obras nunca foi editada nem gravada.

Mas o legado mais importante deixado foi o conjunto de 26 prelúdios característicos e concertantes para violino só, escritos de 1922 até sua morte, os prelúdios são miniaturas virtuosísticas para o violino que a todo momento fazem referência a elementos do universo popular-rural, como a viola caipira (no prelúdio Viola destemida, entre outros), as festividades (Folguedo campestre, Viva João ou a quadrilha Ao pé da fogueira) e os animais (Asas inquietas e Tico-Tico).

Como um experimentador, embora de forma involuntária, já que nunca estava em busca da inovação como um fim em si- Flausino ainda se utilizou de quartos de tom ou de adaptações de técnicas alheias como o “processo chave”: arranjando para violino solo a canção Noite Feliz.

Também desenvolveu uma espécie de “glossário” de sons de animais, determinando ritmos ou constâncias melódicas que sugeriam grilos, aranhas, siriemas, perdizes, arapongas ou pombinhas do campo.

Flausino resolvia dificuldades técnicas em sua música de modo particular, com o arranjo mais conveniente, o resultado porém é satisfatório sonora e musicalmente. Impressionado com Villa-Lobos a quem considerava um músico que tocava peças de caráter nacional de um modo absolutamente pessoal, ao ouvi-lo, exclamava: “É um novo Paganini”.

Apesar mascidas de uma cultura local suas peças peças interessaram a violinistas universais do último século como: Jascha Heifetz, Itzhak Perlman, Isaac Stern e Zino Francescatti.

Lamentando a morte de Flausino, o crítico musical Andrade Muricy em homenagem ao músico afirma: “Não serão muitos os que conheçam esse nome. Entretanto, tenho a convicção de que ficará na História da Música Brasileira, pois foi um verdadeiro criador. Modesto, talvez; o seu lugar, porém, não é insignificante, nem despiciendo (…)Essa série (os 26 prelúdios) faz do seu autor o verdadeiro Ernesto Nazareth do violino brasileiro, e aliás a única contribuição existente que considero importante para a musicografia violinística nacional”.

Texto retirado do trabalho biográfico de Camila Frésca sobre o Compositor- “Uma extraordinária revelação da arte”: Flausino Vale e o violino brasileiro, 2010.

Advogado, poeta, professor, violinista e compositor, Flausino foi uma das mais importantes figuras da vida musical belorizontina na primeira metade do século XX.

Em 2011 foi lançado o livro “Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o vionlino brasileiro” e um cd “Flausino Vale e o violino brasileiro” com músicas do compositor interpretadas por Cláudio Cruz. Estes trabalhos representam uma primeira tentativa de recuperar a obra deste artista que permanece quase desconhecido.

Flausino Vale e o cenário artístico de 1922

Em 1922, o Brasil passava por uma grande revolução interna nas artes, nosso jovens artistas pregavam o desenvolvimento de uma arte genuinamente nacional. Eram movimentos vindos de todas as formas de arte, literatura, pintura e música.

O lema era abolir a arte acadêmica feita nas Academias de Belas Artes e criar uma arte que tivesse como cerne a cultura, o folclore e o brasileiro simples. Um movimento semelhante já havia sido iniciado muito antes na Europa com os impressionistas e praticamente já havia se arrefecido por lá.

Foram expoentes desta manifestação Villa-lobos (música), Mário de Andrade e Oswald de Andrade (literatura), Di Cavalcante, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti (pintura), entre outros artistas. O movimento foi tão envolvente que apesar de várias críticas contrárias culminou na Semana de Arte Moderna de 1922.

Daí entendermos porque um músico como Flausino Vale foi de suma importância para o período, a semântica de sua música traduzia os animais, os sons, o folclore do povo do interior do brasil, bem especificamente Minas. Entende-se assim, facilmente, porque Villa-lobos poderia interessar-se vivamente por Flausino, dentro de seus recursos pouco acadêmicos, o compositor, não intencionalmente, trazia para o violino tudo o que a Semana de Arte Moderna almejava, uma arte nacional, feita por brasileiros, com tema brasileiro.

De certa maneira, Flausino pode ter representado melhor este espírito do que os próprios modernistas, uma vez que o movimento foi criticado por ser uma arte feita por brasileiros que estudavam em academias de arte fora do Brasil para se aperfeiçoar. Ou seja, para criar a chamada arte nacional eles se utilizavam de conhecimentos e ferramentas das academias tradicionais.

Mas com o tempo a música passa a ter influência vinda de fora novamente, com as novas tendências vindas da Alemanha, da França, Estados Unidos. Este, talvez, pode ter sido o motivo pelo qual o compositor ficou desconhecido, não editado e não gravado por tanto tempo.

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