A Dama Azul e as aparições religiosas na arte

A Dama Azul e a representação das aparições religiosas na Arte.

A Dama Azul - Javier Sierra

Javier Sierra consegue dentro da linha moderna de não ficção criar um enredo interessante para ligar os fatos históricos no livro A Dama Azul, de 2009. Uma agente militar americana do Inscom tem sonhos remotos, consegue sonhar com fatos passados e acredita que isso ocorre porque seus antepassados eram índios do Gran Quivira no Novo México. Mas “as viagens mentais” atrapalham sua consciência e ela abandona o projeto.

Um repórter de uma revista mística espanhola, tropeça em uma medalha na rua e imagina ser este um sinal para seguir alguma reportagem. Procurando indícios de um manto de cristo em uma região no interior da Espanha de repente se vê entrando na região de Ágreda e se lembra da reportagem que havia feito alguns meses antes com o Frade Giuseppe Baldi sobre um projeto de Cronovisão, viagens astrais feitas a partir da vibração de determinados sons na música. Seguindo seus instintos de repente se encontra em frente ao Convento da Venerável Irmã Maria de Jesus de Ágreda. Pede autorização para entrar, é muito bem recebido pois segundo as irmãs a Venerável sempre trás à sua casa a pessoa necessária ao trabalho de Deus. Uma vez dentro do Convento chega perto do túmulo da irmã, protegido e conservado para veneração. Se impressiona com a imagem e começa então a perseguir os pequenos fatos da vida da irmã e de seus feitos na região do Novo México.

Através de pesquisas na Biblioteca Nacional de Madri descobre a veracidade sobre os fatos no Memorial de Benavides impresso por Felipe IV em 1630. Na descrição das aparições em relatos dos índios percebe que uma jovem mulher muito bonita e com lindo manto azul desce de uma nuvem com um forte clarão de luz. Sua aparição é física, permite que os índios toquem seu manto e deixa presentes litúrgicos aos mesmos. Para fazer a ligação entre os fatos religiosos místicos e os fatos reais aparecem na trama Anjos enfronhados entre as pessoas comuns, sem asas ou auréolas mas que querem a libertação da cegueira humana.

O final do livro é coerente ao seu conteúdo, a narrativa usada se parece aos modernos livros de não ficção como o Quadro Perdido de Caravaggio ou a Menina que Roubava Livros. Alternam-se os capítulos entre os fatos reais do passado e o enredo de cada personagem até que no final todos se encontram para a finalização da história.

Fatos interessantes da História da Arte

Interessante observar que mesmo no começo do século XVI já existiam pinturas religiosas onde tanto Jesus como Nossa Senhora faziam aparições em que vinham banhados de forte luz, muitas vezes em nuvens carregadas por anjos trazendo mensagens celeste. Como no quadro Assunção de Nossa Senhora de Jorge Afonso de 1515, pintor religioso Português.

Nossa Senhora Assunção, Jorge Afonso, 1515

Em outro povoado no México por volta de 1531 a Virgem de Guadalupe aparece ao índio Juan Diego. Ela pede ao índio que entregue rosas raras aos missionários mas na verdade quando ele abre o manto impresso nele se encontra a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, envolta em forte luz e olhando os presentes.

Virgem de Guadalupe -1531

No Mosteiro de São Bento encontra-se a pintura de Frei Ricardo de Pilar de 1680, Aparição de Nossa Senhora a São Bernardo. A imagem da virgem com uma criança desce banhada em luz trazida por uma luz forte, com anjos em meio as nuvens.

Peculiar é o fato de que as descrições precisas do Memorial de Benavides feitas baseadas no relato dos índios, deixam claro que eles relatavam o que viam pois não tinham nenhum conhecimento da cultura dos brancos ou de suas imagens.

Outro grande artista a conseguir nos passar a realidade e inteligibilidade deste efeito religioso foi Gian Lorenzo Bernini , em sua escultura o Êxtase de Santa Tereza, trabalho realizado de 1645 a 1652. Santa Tereza tem um expressão de puro êxtase olhando o anjo que se aproxima com clarões luminosos esculpidos por trás. Este efeito da escultura dos raios que vem do alto e a iluminação adequada dão o toque de puro movimento ao conjunto. Devido a posição em que se encontra Santa Tereza e a maneira como se posiciona o Anjo muitos consideram a escultura com um toque sensual.

Trazendo para o século XIX, Pedro Américo em 1883 pinta uma imagem interessante A noite com os anjos do amor e dos estudos. Uma mulher sensual que parece volitar trazida por anjos a sua volta, não tem nenhum cunho religioso mas a imagem em si lembra a forma de uma aparição mariana ou de Jesus. O tom da iluminação do conjunto importante é dado pela luz da Lua que se encontra atrás da imagem da Noite.

Chegando ao século XXI, a expressão da aparição com suas características esta representada na sétima arte no filme do diretor Wagner de Assis, Nosso Lar, de 2010 , baseado no livro homônimo psicografado por Chico Xavier. Clarões luminosos percorrem a terra para ajudar nas grandes guerras. Quando o protagonista André Luiz tem autorização para visitar sua antiga casa chega em uma forma resplandescente de luz, volitando pelo ar e acompanhado na sua saída por duas entidades da colônia Nosso Lar.

Ou seja, analisando as representações de 1500 para nosso tempo, vemos que as aparições e os efeitos de bilocações ou apenas de transporte são feitos por pessoas comuns e com certeza com explicações científicas para o efeito.

Fatos Históricos reais

Em 1625 Missões Franciscanas são chamadas ao Novo México para realizar a catequização e batismo de índios na região do Gran Quivira, uma região inóspita e inexplorada até então pela Ordem dos Franciscanos e mesmo pelos colonizadores espanhóis. Chegando ao  povoado de Isleta os missionários liderados por Frei Esteban de Perea se deparam com a incrível caravana de índios Cueloce que não somente estavam preparados para receber o batismo como queriam professar o culto de apenas um Deus. Os espanhóis até então estavam acostumados a tomar a força os territórios e subjugar os povos impondo sua religião, como lidar com esta estranha situação de submissão?

Frei Esteban de Perea fazia parte do Santo Ofício, o que na época significava investigação da Inquisição. Mesmo temendo por sua sorte ele aceita mandar uma expedição ao Gran Quivira para verificar as aparições de uma Dama Azul , como chamavam os índios. Era uma mulher nova, de grande beleza, muita luz e com um lindo manto azul, que aparecia aos índios pedindo que aceitassem a religião do Deus maior dos brancos, caso a nova religião não fosse aceita haveria derramamento desnecessário de sangue. E se havia uma lembrança amarga que os mais velhos conheciam seria a da primeira visita dos exércitos espanhóis.

Como comprovação de que ela existia e que era um espírito de Deus a Dama Azul deixava aos índios pequenos objetos litúrgicos como terços, cruzes; que deveriam ser entregues aos brancos recém chegados. Após coletar as provas e conversar com os índios, Frei Alonso de Benevides, chefe da Inquisição do Novo México volta a Espanha com a Missão de desvendar o mistério, seria a dama uma Aparição Mariana? Seria novamente a Virgem de Guadalupe que havia aparecido em povoados do México ao índio Juan Diego 100 anos antes? Ou seria mais uma exteriorização de uma freira viva que poderia estar se deslocando espiritualmente ao México para este trabalho?

Frei Alonso de Benavides é encarregado então pelo próprio rei da Espanha Felipe IV para investigar o fenômeno. O rei se encontrava maravilhado com o fenômeno e queria dados com urgência. Frei Benavides então recebe indicação de uma jovem freira de clausura que fazia exterioridades constantes entre suas irmãs, diziam inclusive que tinha o poder de curar, levitava.

Se dirige então ao convento de Ágreda em Soria, chegando lá é muito bem recebido por freiras com maravilhosos mantos azuis o que já lhe causa forte impressão. Interrogando irmã Maria de Jesus de Ágreda descobre que ela tem consciência parcial de suas exteriorização mas as poucas memórias são suficientes para que Frei Benavides tenha a certeza de que ela é a Dama Azul do Gran Quivira. Conta com detalhes que pessoas que se parecem com anjos mas que não tem asas a colocam uma espécia de nuvem e a levam as regiões onde os hereges precisam conhecer a palavra do Senhor. Que este fenômeno acontece principalmente quando no convento se entoam as Aleluias, a vibração é tão forte que ocorre a bilocação. Segundo análise do Santo Ofício o fenômeno de bilocação em si já seria conhecido mas o interessante desta jovem freira é ela conseguia vencer grandes distâncias e manter uma certa materialização espiritual, os índios podiam encostar em seu manto, ela conseguia presenteá-los com pequenos mimos. Em 1630 e posteriormente em 1634 frei Alonso de Benavides termina sua investigação e seu relatório impressiona tanto a Felipe IV que este manda imprimir cópia na gráfica Real. A irmã Maria de Jesus de Ágreda passa a se comunicar diretamente com o rei tornando-se sua conselheira.

O repórter Carlos Albert da história é o próprio escritor Javier Sierra que em determinada situação realmente numa viagem dá de cara com o Convento da Irmã Ágreda em Soria e se sente impelido investigar o assunto.

O padre Giuseppe Baldi tem outro nome na realidade mas realmente é professor de música e estuda os fenômenos da música sobre o ser humano.

O Inscom existe e é um departamento que tenta estudar o uso das capacidades espirituais com uso estratégico político.

O Memorial de Benavides que ficou esquecido por muito tempo hoje é leitura obrigatória nas universidades da Espanha, pois além dos fatos da Dama Azul trás preciosas e detalhadas informações sobre a colonização das Américas.

A irmã Maria de Jesus de Ágreda, além das exterioridades e de sua religiosidade latente desde muito cedo, também foi escritora e deixou ao rei Felipe IV o livro “Cidade Mística de Deus” onde revela como Deus e Nossa Senhora se comunicavam com ela. Foi seriamente processada pela Inquisição Espanhola que tinha seus próprios meios de perseguir e julgar as pessoas.

Acreditando ou não em aparições religiosas, o assunto não deixa de nos instigar a seguir adiante e entender esta capacidade que pode ser do ser humano comum com explicações científicas para a mesma.

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