Sacrificium -A arte dos castrati

Neste post gostaria de falar um pouco sobre o CD Sacrificium, com interpretação da mezzo-soprano Cecília Bartoli, mas para complementar este texto deixe a música inicial tocando e aprecie o efeito.

Não me canso de apreciar este CD, o trabalho todo é de uma qualidade impressionante, as composições escolhidas a dedo, a interpretação da mezzo-soprano de uma dedicação extrema, a qualidade da gravação e também a qualidade do material gráfico que vem junto ao CD quando se compra a versão europeia ou americana. As árias foram feitas para vozes dos chamados “castrati” . Ouvindo o CD sentimos a cada música toda a emoção transmitida, é nítido o trabalho perfeito de interpretação e adaptação de Cecília para árias compostas para vozes masculinas infantis líricas.

O projeto Sacrificium consegue trazer para nosso tempo o que por anos foi conseguido a custa do sacrifício de meninos que eram castrados, uma vez que não eram permitidas mulheres nos teatros e coros. Em pesquisa para o álbum, o projeto Sacrificium aponta terem sido castrados em apenas um ano 4 mil meninos, tudo em nome da arte.

Cecília Bartoli teve seu talento reconhecido cedo, por muito tempo se especializou em música barroca, se dedica há alguns anos ao projeto Sacrificium que já se encontra disponível em DVD nas livrarias e lojas do Brasil.

Não consigo entender exatamente porque alguns detalhes sempre faltam a um produto destes ao chegar no Brasil, é muito raro encontrar a versão em que o livro explicativo venha junto e não existe versão traduzida para português. Nele esta descrita a história dos “castrati” , os tormentos a que eram submetidos para atingir a perfeição máxima da voz e da música.

Nos séculos XV e XVI surge a necessidade criada pela igreja de vozes de meninos de aproximadamente 8 anos para os corais, as meninas ou mulheres não podiam se apresentar nestes coros. Os meninos que apresentavam as características certas eram castrados afim de que suas vozes não mudassem com as ações hormonais próprias da idade. Com o tempo este tipo de abuso diminuiu mas foi somente em 1913 que ele se extingue totalmente. As ferramentas que se usavam na época para a castração eram terríveis e levavam a pessoa ao sofrimento máximo físico e emocional. Como podemos ver o fim deste procedimento chega bem perto de nossos dias.

Coral de meninos "castrati"

Haendel chegou a compor óperas para vozes de “castrati”.

O último castrato foi Alessandro Moreschi, do coro da Capela Sistina. Ele se apresentou pela última vez em 1913.

Mas o mais conhecido castrato de que se tem notícia foi Carlo Broschi, conhecido como Farinelli. Sua fama e história foram tão conhecidas que mereceu um filme biográfico do diretor Gerárd Corbiau Farinelli Il Castrato de 1994. Devido ao grande sofrimento Farinelli tornou-se cantor exclusivo do imperador Felipe IV da Espanha, que muito admirava a arte em geral.

O filme mostra todo o transtorno físico e emocional vivido por Farinelli, sua revolta contra quem o havia aprisionado naquele corpo sem utilidade. Para atingir todas as notas e tempos nas árias interpretadas na época por Farinelli, foram necessários dois interpretes vocais para o filme, um contratenor e uma soprano coloratura. Em 2006 seu corpo foi exumado para estudos pois até hoje impressiona a capacidade de atingir e segurar 150 notas que Farinelli possuía.

A Castração representada em outras formas de arte

O ser humano é constantemente castrado em alguns de seus desejos básicos, segundo Freud o homem tem seu tato, desejo físico, instintos castrados pelo seu lado psíquico, seu eu interior, uma espécie de consciente que o regula, e esta escravidão será eterna, ele não pode se desvencilhar desta sua realidade pessoal .

A arte ao longo do tempo procura retratar de várias formas esta situação, os egípcios antigos já demonstravam a necessidade de se castrar ao homem para a evolução de sua espécie. O Deus Ra foi retratado como tendo sido castrado para a purificação e o nascimento de discípulos evoluídos.

Até 1864 os vampiros eram retratados como criaturas sensuais, perigosos bebedores da essência do ser humano, ou seja, seu sangue vital. Anne Rice em suas crônicas vampirescas de 1864, especialmente no livro O Vampiro Lestat, meu predileto, descreve Lestat como um vampiro antenado com sua época, seu perigo reside justamente neste poder de se misturar ao ser humano comum, sem que este sinta o perigo real. Ao ser mordido, transformado em uma arma letal e imortal, o vampiro perde porém algo importante, ele se torna estéril, a transformação causa a castração física do ser. Lestat lamenta profundamente ao longo da história esta parte incômoda de sua transformação. A apartir da castração o amor passa a ser platônico entre vampiros e o contato com o ser mortal apenas conseguido pelo sangue vital.

O vampiro de nosso tempo, como nos livros de Stephany Meyer da Saga Crepúsculo, é romântico, casa-se e até se reproduz, ou seja, começou uma mudança pela perda desta suposta castração ao formar o politicamente correto. Para entender este vampiro moderno é imprescindível a leitura do O Vampiro Lestat.

Anne Rice também escreveu em 1982 o livro “Chore para o céu”, em que conta como era a vida dos castrati no século XVIII.

Na escultura podemos encontrar a influência do que o fenômeno castração poderia fazer a vida de uma pessoa ou artista. No século XVI a homossexualidade era punida com a castração, não se sabe ao certo se por causa disso ou devido a uma corrente neoplatônica da época, mas Michelangelo Buonarotti, o grande escultor, nunca deixou transparecer sua tendência homossexual para nada além das cartas de amor platônico e sonetos. Segundo biógrafos diversos, uma coisa era certa, ele acreditava sinceramente que o envolvimento carnal nunca seria possível, somente o amor platônico seria aceitável para ele. Acredita-se que transportava para seu trabalho esta repressão emocional. Suas esculturas de corpo masculino são de uma perfeição física impressionante, Michelangelo acreditava que uma escultura teria que ser forte para resistir ao tempo e a acidentes, algumas de suas esculturas emergiam da massa do material para a vida liberta enquanto obra, mas ainda assim pareciam fazer parte sólida deste material. Uma dualidade que o próprio Michelangelo vivia entre ser a sua essência e ser o que seu tempo e sociedade exigiam dele.

Michelangelo- Pietá- 1499

Para finalizar, a quem gostou do tema ou da música , gostaria de convidar a conhecer um jovem de nosso tempo com qualidades impressionantes de voz, Philippe Jaroussky. Nos faz pensar realmente em algo sublime.

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